Chefe do Gabinete da Presidência da Ucrânia, Budanov, revela contatos de bastidores com a inteligência militar russa e a Wagner
Em entrevista ao The New York Times publicada em 4 de setembro, Kyrylo Budanov, chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia e líder da delegação ucraniana nas negociações com a Rússia, afirmou que manteve contatos de bastidores por anos com o chefe da GRU russa, almirante Igor Kostyukov, e com o fundador da Wagner, Yevgeny Prigozhin, até a rebelião da Wagner em 2023. Budanov também afirmou que aconselhou o presidente Volodymyr Zelensky a não aceitar nenhum compromisso sobre o Donbas que desse à Rússia o controle formal de território que suas forças não conseguiram tomar.
Pontos principais
- Budanov chefia o Gabinete do Presidente da Ucrânia desde o início de janeiro de 2026 e lidera a delegação de Kiev nas negociações com Moscou.
- Em entrevista ao The New York Times publicada em 4 de setembro, Budanov disse ter mantido contatos prolongados com o chefe da GRU, almirante Igor Kostyukov, e com o fundador da Wagner, Yevgeny Prigozhin.
- Os primeiros contatos com Kostyukov ocorreram em 2022, mediados pela Turquia, sobre a abertura de corredores no Mar Negro para exportação de grãos, e resultaram em avanços, especialmente em questões de prisioneiros de guerra.
- Os contatos com Prigozhin continuaram até a rebelião da Wagner contra o Kremlin em 2023 e a morte do líder mercenário na explosão de um avião.
- No diálogo, Budanov manteve a interlocução com Kostyukov mesmo após a operação ucraniana de 2024 contra uma posição da GRU em uma fábrica de cimento em Vovchansk.
- Budanov aconselhou Zelensky a recusar compromissos sobre o Donbas que permitissem à Moscou obter formalmente territórios que o exército russo não conseguiu capturar; o NYT resumiu: 'ceder território daria a Moscou um prêmio que sua força militar não conseguiu tomar'.
- Budanov avaliou que as negociações podem ser retomadas em setembro, mas que condições para um cessar-fogo provavelmente não surgirão antes da primavera de 2027.
Por que importa
Como chefe do Gabinete do Presidente e líder da delegação ucraniana nas negociações com a Rússia, Budanov é a voz mais direta sobre a condução do processo diplomático. A revelação de que manteve canais paralelos com o chefe da GRU e com Prigozhin esclarece como uma interlocução discreta foi construída e sustentada ao longo de anos, inclusive após operações militares entre forças ligadas a esses interlocutores. Sua recomendação a Zelensky estabelece o teto político de qualquer acordo sobre o Donbas e a usina nuclear de Zaporizhzhia — os dois pontos que, por ocasião das conversas em Abu Dhabi, já tinham reduzido o plano original de 20 pontos a essas duas questões-chave. A entrevista ainda oferece uma rara descrição oficial da arquitetura das negociações.
O que aconteceu
Em entrevista ao The New York Times publicada em 4 de setembro de 2026, Kyrylo Budanov, chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia e responsável pela delegação de Kiev nas conversas com a Rússia, detalhou canais de comunicação de bastidores que manteve com autoridades russas. Segundo Budanov, ele se comunicou com frequência com o chefe da GRU, almirante Igor Kostyukov, com quem teve seu primeiro contato em 2022, mediado pela Turquia, para discutir a abertura de corredores no Mar Negro para o transporte de grãos. Esse diálogo, disse, produziu avanços concretos, sobretudo em questões de prisioneiros de guerra, e continuou mesmo após a operação ucraniana de 2024 em uma fábrica de cimento em Vovchansk, na qual a inteligência de Kiev infligiu perdas significativas às forças de Kostyukov. Budanov também afirmou ter se comunicado regularmente com Yevgeny Prigozhin, fundador da Wagner, até a rebelião do grupo contra o Kremlin em 2023 e a posterior morte de Prigozhin na explosão de um avião. Nomeado chefe do Gabinete do Presidente no início de janeiro de 2026, Budanov disse que uma das principais razões para aceitar o cargo foi justamente a possibilidade de conduzir as negociações. Em Abu Dhabi, nas rodadas de janeiro e fevereiro de 2026, tentou imprimir um novo tom às tratativas, propondo à delegação russa definir objetivos concretos, como soluções de compromisso para a governança pós-guerra no Donbas. Sobre o conteúdo, Budanov aconselhou o presidente Volodymyr Zelensky a recusar qualquer acordo que entregasse à Rússia o controle formal de partes do Donbas que o exército russo não conseguiu tomar. Ele também avaliou que as conversas podem ser retomadas em setembro, mas que as condições para um cessar-fogo provavelmente não aparecerão antes da primavera de 2027. No dia 28 de agosto, em entrevista à apresentadora Natalia Moseychuk, Budanov já havia declarado que a Rússia não quer interromper o conflito e que seu fim não deve ser esperado no inverno que se aproxima.
O que dizem as fontes internacionais
Toda a divulgação chega ao leitor por meio da entrevista original ao The New York Times de 4 de setembro, retransmitida pelas publicações ucranianas. O material disponível não traz um meio internacional independente para contrastar a abordagem da notícia.
Contexto
A primeira reunião trilateral entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos ocorreu em 23–24 de janeiro de 2026, com a delegação ucraniana então liderada por Rustem Umerov. Uma segunda rodada aconteceu em Abu Dhabi em 4–5 de fevereiro de 2026. Até esse momento, um projeto de paz de 20 pontos já havia se reduzido a duas questões não resolvidas: a administração da usina nuclear de Zaporizhzhia, ocupada pela Rússia, e o controle sobre a parte do Donbas que permanece em mãos ucranianas. Budanov assumiu o Gabinete do Presidente no início de janeiro de 2026 e afirmou que uma das principais razões para aceitar o cargo foi justamente poder conduzir as negociações com Moscou. Seu primeiro contato com Kostyukov, em 2022 e mediado pela Turquia, tratou da abertura de rotas no Mar Negro para o escoamento de grãos. Os diálogos com Prigozhin continuaram até a rebelião da Wagner em 2023 e a morte do líder mercenário na explosão de um avião. Em 28 de agosto, Budanov disse à entrevistadora Natalia Moseychuk que a Rússia não quer interromper a guerra e que seu fim não deve ser esperado no próximo inverno, acrescentando que as negociações serão retomadas em breve.