Emissário de Trump propõe troca de prisioneiros políticos russos por alívio de sanções; Kremlin rejeita
O enviado especial do presidente dos EUA, John Coale, apresentou uma estratégia que vincula a libertação de prisioneiros políticos russos ao alívio das sanções americanas e à retomada de laços econômicos com Moscou. Donald Trump apoiou a iniciativa, segundo a revista The Atlantic. O Kremlin, por meio do porta-voz Dmitry Peskov, rejeitou a proposta, afirmando que a Rússia não reconhece a existência de prisioneiros políticos e que esse tema não está sendo discutido com os EUA.
Pontos principais
- O enviado especial de Trump, John Coale, propôs que a Rússia liberte prisioneiros políticos em troca do alívio de sanções dos EUA e da retomada de laços econômicos.
- Trump concordou com a iniciativa, segundo reportagem de Simon Shuster na The Atlantic publicada em 29 de setembro.
- O Kremlin rejeitou a proposta: Peskov disse que a Rússia 'categoricamente nega' a existência de prisioneiros políticos e que o tema não está em negociação.
- A estratégia replica a abordagem usada por Coale na Bielo-Rússia: após libertação de prisioneiros, os EUA afrouxaram sanções e negociaram compra de potássio bielorrusso.
- Em 16 de setembro, a Bielo-Rússia concordou em libertar 25 prisioneiros políticos em troca do levantamento de sanções contra as empresas Lakokraska e Bellesbumprom.
- Coale foi nomeado na segunda-feira para o cargo de Enviado Especial Presidencial para Assuntos de Reféns, no posto de embaixador, sujeito à confirmação do Senado.
- Coale planeja coordenar ações com Steve Witkoff, principal ponto de contato de Trump com a Rússia, que se encontrou com Putin ao menos sete vezes desde o início da guerra.
- Ucranianos criticam a abordagem: o presidente Zelensky afirmou que tentará bloquear o levantamento de sanções até o fim do conflito.
Por que importa
A iniciativa expõe uma estratégia formal dos EUA que troca alívio de sanções pela libertação de prisioneiros políticos russos, com Trump respaldando-a pessoalmente. Sinaliza abertura da Casa Branca a grandes acordos comerciais com Moscou em setores como petróleo, combustíveis e terras raras. Foi rejeitada pelo porta-voz do Kremlin, o que enfraquece a abordagem. Afeta diretamente os interesses da Ucrânia, e o presidente Zelensky já anunciou que tentará bloquear qualquer levantamento de sanções antes do fim da guerra. Também evidencia uma contradição interna na política americana: endurecimento legislativo de sanções convivendo com movimentos diplomáticos para afrouxá-las e expandir o comércio com a Rússia.
O que aconteceu
O enviado especial do presidente dos EUA, John Coale, propôs uma nova estratégia em relação à Rússia: o Kremlin deveria libertar prisioneiros políticos em troca do alívio de sanções americanas e da retomada de laços econômicos com Moscou. Segundo reportagem de Simon Shuster publicada na The Atlantic em 29 de setembro, o presidente Donald Trump concordou com a iniciativa, que tem como objetivo reintegrar a Rússia à economia global e abrir caminho para acordos dos EUA em petróleo, diesel, terras raras e outras mercadorias russas. A proposta foi inspirada na abordagem que Coale já havia aplicado na Bielo-Rússia, onde a libertação de prisioneiros foi seguida por alívio de sanções e por negociações de compra de potássio. Em 16 de setembro, a Bielo-Rússia concordou em libertar 25 prisioneiros políticos em troca do levantamento de sanções contra as empresas Lakokraska e Bellesbumprom. Em 24 de setembro, o líder bielorrusso Alexander Lukashenko assinou um decreto perdoando 15 pessoas, 13 delas condenadas por 'extremismo'. Coale pretende coordenar suas ações com Steve Witkoff, principal ponto de contato de Trump com a Rússia, que se encontrou com Vladimir Putin ao menos sete vezes desde o início da guerra em larga escala, mas visitou Kiev apenas uma vez. Na segunda-feira, a Casa Branca nomeou Coale para o cargo de Enviado Especial Presidencial para Assuntos de Reféns, no posto de embaixador, sujeito à confirmação do Senado. A proposta surgiu após um encontro na primavera entre Coale e o dissidente russo e laureado com o Nobel da Paz Dmitry Muratov, cofundador da Novaya Gazeta, que o incentivou a aplicar à Rússia a abordagem usada na Bielo-Rússia. O Kremlin rejeitou a formulação: o porta-voz Dmitry Peskov afirmou que a Rússia 'categoricamente nega' a existência de prisioneiros políticos e que o tema do alívio de sanções em troca de libertações não está em discussão com os EUA, embora os serviços especiais russos e americanos mantenham 'contatos regulares' sobre trocas de prisioneiros.
O que dizem as fontes ucranianas
A mídia ucraniana destaca o plano como uma questão de segurança diretamente relevante para o país. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que tentará bloquear o levantamento de sanções contra a Rússia até o fim da guerra, argumentando que o aumento da receita russa se traduz em mais recursos para a guerra. Negociadores ucranianos consideram a abordagem arriscada, avaliando que o comércio ocidental com a Rússia pode reforçar a capacidade militar russa e que acordos econômicos não oferecem garantia de segurança para a Ucrânia. A cobertura também enfatiza que a proposta foi rejeitada pelo Kremlin e que funcionários ucranianos não esperam negociações de paz sérias no curto prazo, acreditando que a Rússia se prepara para uma nova onda de ataques no inverno. Algumas matérias apontam que a estratégia pode desagradar ucranianos, europeus e parte dos aliados de Trump no Congresso.
Onde as versões divergem
As fontes divergem em alguns pontos. O Kremlin, por meio do porta-voz Dmitry Peskov, rejeitou a premissa central da estratégia ao afirmar que a Rússia 'categoricamente nega' a existência de prisioneiros políticos e que o tema do alívio de sanções em troca de libertações não está sendo discutido, embora os serviços especiais russos e americanos mantenham contatos regulares sobre trocas de prisioneiros. Há também divergência sobre o número de prisioneiros políticos bielorrussos liberados pela abordagem de Coale: algumas fontes dizem 'centenas', outras especificam cerca de 500, e uma menciona 'dezenas'. Por fim, as fontes divergem sobre a expectativa de negociações de paz com a Rússia: a maioria avalia que não ocorrerão no curto prazo; algumas acrescentam que autoridades ucranianas não as esperam antes da primavera e consideram os esforços diplomáticos de Trump ineficazes diante da ausência de disposição de Vladimir Putin para concessões.
Contexto
EUA e Europa mantêm sanções contra elites, bancos, indústria e setor de energia russos desde 2014. No início de 2025, Trump afrouxou temporariamente algumas restrições, permitindo que a Rússia aumentasse a venda de combustíveis no mercado mundial; a Ucrânia condenou a decisão. Trump também assinou recentemente uma lei (o projeto Lindsey Graham) que lhe permite impor sanções mais duras contra a Rússia e seus parceiros comerciais. Coale e outros diplomatas americanos já haviam obtido a libertação de cerca de 500 prisioneiros políticos bielorrussos, seguida por alívio de sanções e por um acordo sobre potássio bielorrusso. O enviado Steve Witkoff, principal ponto de contato de Trump com a Rússia, se reuniu com Vladimir Putin ao menos sete vezes desde o início da guerra em larga escala, mas viajou a Kiev apenas uma vez. Segundo o movimento Memorial, ao menos 5.729 pessoas estavam presas por motivos políticos na Rússia e nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia em 30 de setembro, número que o Memorial considera mínimo.