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Tiroteio entre SBU e inteligência militar em Kiev expõe racha entre agências de segurança da Ucrânia

Dois episódios de tiroteio entre agentes do SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) e do HUR (serviço de inteligência militar) ocorreram em Kiev nos dias 1 e 2 de setembro, deixando três militares do HUR feridos. O confronto está ligado à detenção de Stéfan Kaplunov, vice-comandante do Corpo Voluntário Russo. O presidente Volodymyr Zelensky classificou o episódio como "absolutamente vergonhoso" e anunciou a demissão de vices de ambas as agências.

Pontos principais

  • Dois tiroteios entre SBU e HUR ocorreram em 1 e 2 de setembro no bairro Berezniaky, em Kiev, deixando três militares do HUR feridos (um leve, dois moderados)
  • O conflito está ligado à detenção em 23 de agosto de Stéfan Kaplunov, vice-comandante do RDK pelo HUR, que o RDK classifica como sequestro e o SBU como detenção antiterrorista
  • Em 3 de setembro, foram aplicadas suspeitas a um agente do SBU (Nazar Verkhola, art. 365 do Código Penal) e a um militar do HUR (Serhiy Ivanov, art. 348 do Código Penal)
  • Em 4 de setembro, o Tribunal Distrital de Pechersk aplicou prisão domiciliar com fiança pessoal aos dois suspeitos; promotor havia pedido detenção
  • O presidente Zelensky chamou o incidente de "absolutamente vergonhoso" e anunciou demissões de vices do SBU e do HUR; já foi demitido Oleh Khramov, chefe do Departamento de Proteção de Segredos de Estado e Licenciamento do SBU
  • O DBR abriu investigação sobre o conflito e um caso separado pelo desaparecimento de Kaplunov; ex-deputado Ihor Mosiychuk publicou dados pessoais de agentes do SBU, e o DBR negou ter repassado informações

Por que importa

O incidente expõe uma ruptura aberta entre duas das principais agências de segurança da Ucrânia, com tiroteio em área residencial de Kiev e três militares feridos. O caso já gerou processos criminais contra agentes nomeados de ambos os lados e provocou uma intervenção presidencial, com demissões anunciadas e o afastamento de um alto funcionário do SBU. A interpretação do SBU — de que Kaplunov foi detido por suspeita de participação em um plano da FSB para assassinar um líder da oposição russa que viria à Ucrânia no Dia da Independência — conecta a crise interna a uma operação de contrainteligência em curso.

O que aconteceu

Na noite de 1 de setembro e na manhã de 2 de setembro, dois episódios de tiroteio envolvendo agentes do SBU e militares do HUR ocorreram em Kiev, no conjunto habitacional Berezniaky (distrito de Dnipro), nas proximidades do apartamento do vice-comandante do RDK, Stéfan Kaplunov. Segundo o comandante do RDK, Denys Kapustin, os primeiros disparos foram por volta das 23h do dia 1, quando representantes do SBU tentaram entrar no apartamento; um segundo confronto mais intenso ocorreu por volta das 8h do dia 2, com o SBU abrindo fogo, disparando contra as pernas, e o HUR não teria revidado. Três militares do HUR ficaram feridos (um leve, dois em estado moderado) e foram hospitalizados. O RDK havia anunciado em 1 de setembro que Kaplunov fora sequestrado por desconhecidos no pátio do prédio; depois se soube que o SBU foi responsável pela ação em 23 de agosto, classificando-a como detenção. Em 3 de setembro, o procurador-geral Ruslan Kravchenko anunciou que foram aplicadas suspeitas a um agente do SBU — Nazar Verkhola, sob a parte 2 do art. 365 do Código Penal (excesso de autoridade por policial), com pena de 3 a 8 anos — e a um militar do HUR — Serhiy Ivanov, comandante de esquadrão, sob o art. 348 (atentado contra a vida de policial), com pena de 9 a 15 anos ou prisão perpétua. Em 4 de setembro, o Tribunal Distrital de Pechersk, em sessões fechadas, aplicou a ambos prisão domiciliar com fiança (osbysta poruka): para Ivanov, o fiador foi Zaur Malakshenidze, comandante da unidade militar à qual pertence; para Verkhola, o chefe do Departamento de Contrinteligência do SBU. O promotor havia pedido detenção com possibilidade de fiança de 1 milhão de hryvnia. O presidente Zelensky chamou o episódio de "absolutamente vergonhoso", afirmou que vices dos chefes do SBU e do HUR serão demitidos e determinou investigações internas nas duas agências; em 3 de setembro, foi demitido Oleh Khramov, chefe do Departamento de Proteção de Segredos de Estado e Licenciamento do SBU. O DBR (Gabinete Estatal de Investigações) conduz a investigação principal e abriu também um caso pelo desaparecimento de Kaplunov. O SBU publicou em 3 de setembro supostas capturas de tela de conversas extraídas do telefone de Kaplunov e um vídeo em que ele admitiria contatos com a FSB, alegando que ele teria preparado, por encomenda da FSB, o assassinato em Kiev de um líder da oposição russa que viria para o Dia da Independência (mídia vinculada ao nome de Akhmed Zakayev, chefe do governo da República Tchetchena da Ichkéria no exílio) e também o assassinato de militares das Forças de Defesa da Ucrânia mediante pagamento.

Onde as versões divergem

Há divergências relevantes entre as versões dos envolvidos e das autoridades. RDK e Kaplunov classificam a ação do SBU de 23 de agosto como sequestro, com pessoas se passando por policiais, algemamento e pressão psicológica para extrair confissão de contatos com a FSB; o SBU descreve como detenção antiterrorista, com Kaplunov cooperando com a investigação. Sobre o tiroteio da manhã de 2 de setembro, Kapustin afirma que o SBU abriu fogo, atirou contra as pernas sem intenção de matar e o HUR não revidou; o SBU sustenta que um grupo armado atacou sua equipe operacional durante buscas urgentes e que seu esquadrão Alfa usou armas contra quem resistiu. Há ainda versões opostas sobre quem iniciou o confronto físico: o advogado de defesa Taras Borovsky reproduz a tese do SBU de que o militar do HUR Serhiy Ivanov "atacou primeiro"; Kapustin diz o contrário. Bloggers Igor Lachenkov e Serhiy Sternenko acusaram o DBR de ter repassado dados pessoais de agentes do SBU ao ex-deputado Ihor Mosiychuk (sob sanções do Conselho de Segurança Nacional por propaganda pró-Rússia), alegando ordem do diretor Oleksiy Sukhachov; o DBR negou oficialmente a transferência e classificou as acusações como tentativa deliberada de descrédito. Por fim, sobre a suposta trama de assassinato contra um líder da oposição russo, o círculo de Akhmed Zakayev afirmou à mídia que soube do caso apenas pelas reportagens, sem confirmação independente; Kaplunov nega as acusações.

Contexto

O Corpo Voluntário Russo (RDK) é subordinado à unidade especial "Tymur" do HUR e atua em operações contra o inimigo. Kaplunov é vice-comandante do RDK para operações de combate; o comandante do RDK, Denys Kapustin, afirma que a liderança do RDK tinha conhecimento e aprovava os contatos de Kaplunov com o lado russo. Kaplunov afirma que foi sequestrado em 23 de agosto por pessoas que se apresentaram como policiais, mantido por nove dias em dois locais, algemado e submetido a interrogatórios com pressão psicológica; o SBU diz que ele foi detido em operação contra um plano da FSB de assassinato em Kiev de um líder da oposição russa (mídia menciona Zakayev) e de militares das Forças de Defesa da Ucrânia. Após o tiroteio em Kiev, Kaplunov foi recolhido por combatentes da unidade "Tymur" e está em local seguro sob proteção deles. O HUR classificou a onda subsequente de vazamentos sobre agentes do SBU como uma campanha de desinformação direcionada contra a inteligência militar.